UMA VIAGEM PELO MUNDO DOS LIVROS

No dia em que se assinalam anos da morte de Miguel de Cervantes, escritor espanhol que faleceu em 1616, comemora-se o Dia Mundial do Livro. A data foi escolhida não só como forma de homenagear o autor da conhecida obra Dom Quixote, mas também como forma de relembrar as obras de William Shakespeare, já que foi também esta a data da morte do dramaturgo inglês, segundo o calendário gregoriano. Neste dia, são muitas a celebrações por todo o mundo, que relembram o quanto um simples conjunto de folhas de papel pode estar recheado de histórias que carregam mensagens preciosas e permitem que todos nós viagemos no tempo e nos recriemos, recriando também o mundo à nossa volta. Também a blogosfera decidiu celebrar e, a pedido da escritora e blogger Sofia Costa Lima, do blogue A Sofia World, muitas outras bloggers decidiram partilhar nas suas páginas os cinco livros que mais as marcaram. A convite da Sofia, também eu venho aqui confessar a minha paixão pelo mundo das letras. Desde que me conheço que vivo rodeada de livros: de ficção ou os técnicos, leio tudo. Quando era mais nova, bastava que a minha mãe me desse um livro para as mãos que eu ficava quieta e calada, a dar asas à imaginação. Ainda hoje é assim: dêem-me um livro e um chá e eu fico horas perdida nos enredos literários. Escolher os cincos livros que mais me marcaram é uma tarefa dificíl, especialmente porque, muitas vezes, cada livro têm um valor sentimental maior pela pessoa que me deu ou recomendou o título ou o autor. Gosto sobretudo de livros que passem uma mensagem forte, seja porque a história passa-se numa realidade completamente diferente da minha, seja porque consegue tocar-me o coração. Ou uma combinação das duas. Estas são as minhas escolhas.

Eu, Malala de Malala Yousafzai

Eu, Malala, ou em inglês I Am Malala, conta a história real de Malala Yousafzai, uma menina nascida no Paquistão, que viu a sua vida posta em perigo por lutar pela igualdade de direitos humanos no seu país. Com apenas 10 anos, Malala presenciou a forte ocupação talibã da região do Paquistão onde vivia e assistiu ao massacre humano que lhe levou amigos e família. No entanto, sem nunca baixar os braços, e convicta de que devia lutar por aqueles que acredita serem os valores básicos de dignidade humana, Malala fez frente a muitas regras impostas pelos talibãs. Por exemplo, no Paquistão, as meninas eram proíbidas de frequentar a escola, mas Malala lutou pela sua educação e pela educação de muitas outras raparigas da sua idade. E tudo isto de forma pacífica: Malala lutou pela paz. Hoje, depois de uma bala quase lhe tirar a vida, a rapariga vive no Reino Unido, onde continua a promover os direitos das mulheres em todo o mundo e é a pessoa mais nova de sempre a receber o Prémio Nobel da Paz. Li este livro no verão de 2015, e mudei completamente a minha perspectiva em relação à luta pelos direitos das mulheres. Como diz Malala, um livro e uma caneta são o suficiente para mudar o mundo. Por isso, como ela, acredito que a mudança assenta na educação. A mudança não passa pela guerra, pelo grito, pelas revoltas, por tentar chocar o mundo com atitudes pouco educadas. A mudança passa pelo respeito e, sobretudo, pelo amor. Lutar por melhores condições humanas passa por isso: amar o próximo. Todo e não só aquele que nos trata bem e nos abre portas. 

“Let us pick up our books and our pens,” I said. “They are our most powerful weapons. One child, one teacher, one book and one pen can change the world.” 

Into The Wild de Jon Krakauer

O livro, publicado em 1996 por Jon Krakauer, conta a história de Christopher McCandless, um jovem americano que, após terminar a universidade e finalizar o percurso ditado pelos seus pais, decide vender todos os seus bens e partir numa aventura que lhe irá custar a vida. Christopher McCandless viajou à boleia por toda a América do Norte, sob o nome de Alexander Supertramp, para que ninguém o localizasse, e morreu no Alaska, vítima de envenenamento, por ter consumido uma planta tóxica sem saber. Esta é uma história real, que foi descoberta por Krakauer, que decidiu seguir os passos de Christopher McCandless, recriando a sua história em livro e, mais tarde, em filme. Into The Wild é um livro que leio vezes e vezes sem conta. Li-o primeiro por sugestão da minha melhor amiga e, mais tarde, em busca de inspiração. A verdade é que o livro carrega uma história poderosa, de revolta para com a sociedade, de desejo pela Mãe Natureza. O livro lembra-nos que o mais importante não é a quatidade de dinheiro que possuímos na conta bancária, que título temos na sociedade ou o número de quartos que a nossa casa tem, mas sim os momentos simples, como um nascer do sol nas montanhas e um banho nas águas puras de um rio. Ainda que Chris não tenha sobrevivido, isso não diminui a verdade da sua história e a quantidade de corações que ele já inspirou prova isso mesmo.

"Happiness is only real when shared."

1984 de George Orwell

Mil Novecentos e Oitenta e Quatro é um livro que, apesar de ter sido escrito em 1948 e publicado no ano seguinte, continua muito (e cada vez mais) actual. O livro mostra-nos, através da história de Winston, os perigos de vivermos numa sociedade totalitária, em que o Estado tem total poder sobre todos os domínios da nossa vida, tanto pública quanto privada. Aqui, o Partido tem como objectivo apenas estar no poder e, através do olho do Grande Irmão, que governa o país e a todos vigia, manter-se no poder. Não é, e o próprio Orwell o deixou claro, um ataque a um partido político específico daquela altura, mas sim uma forma de deixar claro os métodos menos correctos usados pelo comunismo e pelo fascismo para controlar uma sociedade. Não costumo gostar especialmente de livros com teor político, mas este deixou-me arrepiada. Como pode um livro, publicado há mais de 60 anos, continuar tão actual? Como pode um livro de outro tempo, continuar a ser um livro que nos mostra para onde estamos a caminhar? A história é cíclica e George Orwell faz o favor de relembrar a todos nós desse mesmo facto. 

“War is peace. 
Freedom is slavery. 
Ignorance is strength.” 

Memorial do Convento de José Saramago

São poucas as pessoas com quem falo que adoram o Memorial do Convento tanto quanto eu gosto dele. Li este livro ainda durante o ensino secundário, para a disciplina de Português A (ainda tem este nome?), e voltei a relê-lo umas três vezes depois disso. Para mim, José Saramago é um dos melhores escritores de todo o sempre, pela sua magnífica capacidade de contar histórias, misturando a realidade histórica com a ficção. Memorial do Convento marcou-me não só pela sua sátira ao contexto histórico que Portugal vivia (e que hoje, ao ler-se, ainda é tão actual), mas também pela maravilhosa história de amor de Baltazar e Blimunda. Há tanto simbolismo nesta história de amor, como a relação entre o Sol e a Lua, pois Baltazar era o sol (porque via na luz) e Blimunda a Lua (porque via na escuridão, via as almas, os interiores, através de um dom). Baltazar e Blimunda são, assim, um só. Nesta história há magia, há jogos de poder e há quem lhes faça frente. Nesta história há História e misticismo, bruxas e deuses. Nesta história há mais do que aquilo que se vê à luz das palavras e sobretudo foi isso que me fez gostar tanto dela.

“não falou Blimunda, não lhe falou Baltasar, apenas de olharam, olharem-se era a casa de ambos.” 

As Velas Ardem Até Ao Fim de Sándor Márai

Este livro marcou-me não pela história em si, embora ela também seja tocante, mas pela forma como me fez desejar escrever um livro. Sándor Márai escreve maravilhosamente bem: brinca com as palavras, dá-lhes sentimento, junta-as para atingir o nosso coração. Também eu sonho escrever assim. As Velas Ardem Até Ao Fim conta a história de dois homens, outrora amigos inseparáveis, que, depois de quarenta sem se verem, voltam a reunir-se, num castelo na Hungria, para jantar e falar sobre a vida, a amizade, o amor, o desamor, a traição e segredos que se guardam para sempre. Mais do que consumir o livro, ao lê-lo, Sándor Márai, faz-nos pensar nos nossos valores pessoais e reflectir sobre eles. Para mim, este é um dos livros que guardarei para sempre no meu coração. 

"Do you also believe that what gives our lives their meaning is the passion that suddenly invades us heart, soul, and body, and burns in us forever, no matter what else happens in our lives? And that if we have experienced this much, then perhaps we haven’t lived in vain? Is passion so deep and terrible and magnificent and inhuman?"
Com amor,
Joana

MOTHER EARTH {we are one}


{Escrevi este texto há dois anos. Não podia deixar de o partilhar agora.}

"You carry Mother Earth within you. She is not outside of you. Mother Earth is not just your environment. In that insight of inter-being, it is possible to have real communication with the Earth, which is the highest form of prayer."

Está a chover lá fora: a água da chuva inunda o jardim e deixa um cheiro intenso a terra molhada. Consigo ouvir a chuva e consigo sentir o odor da natureza, embora tenha as janelas do quarto fechadas. É de noite e há nuvens no céu, que escondem as estrelas e a lua. O coração da Mãe Terra pulsa por baixo dos meus pés, por baixo deste chão, por baixo do mundo e em volta dele. É a vida na sua plenitude. Não há nada mais bonito do que esta vida, no seu estado mais puro.
Hoje é o Dia da Terra e eu escrevo sobre ele, para me lembrar de que todos os dias é possível sentir aquela que nos sustenta, aquela que nos dá vida, aquela que é a nossa casa. Escrevo para me lembrar porque me esqueço demasiadas vezes: corro de um lado para o outro, descuidando-me nos pequenos detalhes que vão estragando aquele que é o nosso bem mais valioso: o nosso planeta. E não me quero esquecer.
Porque esquecer-me deste planeta é esquecer-me de mim própria.
Esquecer-me de que a Terra sou eu é perder-me.
Porque, sim, ela está dentro de nós e, com ela, somos um ser único.
Por isso, quero lembrar-me. Quero amá-la. Quero amar-me. Quero amar todos os outros seres que tornam o nosso pequeno-grande planeta azul um grande coração de energia. Que colocar a mão na terra molhada do jardim inundado lá fora e semear esse meu amor que se tornará o amor de todos nós.
E quero fazê-lo todos os dias. Para sempre.


Com amor,
Joana

VIVER EM LONDRES | O que fazer quando chegar


Despediste-te da tua família e dos teus amigos, provavelmente sem saberes quando os voltarias a abraçar. Apanhaste um avião com destino ao incerto. Aterraste em Londres. E agora? Agora é só começar. Se não sabes por onde, continua a ler a publicação de hoje. 

1. Descansar e conhecer os cantos à casa
É certo que quando chegamos vimos cheios de vontade de começar, mas a verdade é que, depois de uma mudança tão abrupta, pôr logo mãos à obra nem sempre é a escolha mais acertada. A verdade é que há formas mais equilibradas de "pôr a mão na massa". Por exemplo, conhecer os cantos à casa, que é como quem diz descobrir Londres. Eu cheguei a 30 de Junho e decidi que, até ao dia 6 de Julho, segunda-feira, ia ter bastante calma e aproveitar para "turistar". Lembro-me que durante esses dias fui até ao centro de Londres muitas vezes, fiz o roteiro turístico normal, apanhei o metro vezes e vezes sem conta em várias direcções, ambientei-me aos autocarros diurnos e nocturnos, aproveitei para ler sobre os melhores sítios para morar e fui estudando o mercado de trabalho: devagar. Nestes primeiros dias, devo ter enviado cerca de uma dezena de currículos, pois queria mesmo dar tempo ao tempo e inserir-me devagar no mundo londrino, que, diga-se de passagem, é muito stressante. 



2. Arranjar um número de telemóvel inglês
Esta deve ser a vossa primeira preocupação. Porquê? Vão precisar de um número de telemóvel para quase todos os passos que se seguem: para receberemc otnactos de entrevistas de emprego, para abrirem uma conta no banco, para contactarem o mundo, no fundo. Existem várias redes móveis, que se adequam mais ou menos consoante as vossas necessidades. A EE, a giffgaff e a Three são talvez aquelas mais indicadas para os jovens. Oferecem muitos GB de internet, mensagens grátis e minutos de chamadas gratuitas também. A EE foi a primeira rede que tive, exactamente porque me dava a possibilidade de aceder à internet gratuitamente e também de trocar mensagens sem pagar nada. Mais tarde, mudei para a Three Mobile e fiz um contrato de 12 meses com eles, que me deu acesso a internet e mensagens ilimitadas, chamadas grátis até 125 minutos e ainda à função Stay At Home, que vos permite utilizar o vosso telemóvel em vários países, incluíndo Portugal, como se estivessem no Reino Unido. Isto quer dizer que, quando viajo, raramente pago roaming. Depois existem outras ofertas, como a LycaMobile e a Lebara, que são redes móveis que vos dão a possibilidade de efectuar chamadas para outros países a preços reduzidos. Nunca utilizei estas redes porque sempre me pareceram ter demasiada publicidade duvidosa para imigrantes, que nem sempre se traduz em verdades. 

3. Marcar uma entrevista no JobCentre para pedir o National Insurance Number
What? Falemos em português. Ora, para trabalhar legalmente no Reino Unido é preciso existir um registo nosso. Esse primeiro registo é feito no JobCentre (Centro de Emprego) da vossa área de residência, através de um pedido de National Insurance Number (uma mistura entre um Número de Segurança Social e um Número de Identificação Fiscal). Se vêm para o Reino Unido para trabalhar, esta deve ser a primeira burocracia a tratar. (Se vêm para estudar, o caso é diferente e tratam de tudo junto da vossa Universidade.) Para fazer este pedido, é necessário, primeiro, marcar uma entrevista do JobCentre. Podem consultar os números de telefone para marcação de entrevista aqui. Geralmente, entre a data do pedido de entrevista e a data em que vão, efectivamente à entrevista, passam cerca de três semanas, portanto convém que marquem assim que chegam, para que, quando começarem a trabalhar, já tenham o National Insurance Number em vossa posse. Para a entrevista devem levar o vosso Cartão de Cidadão ou Passaporte e um comprovativo de morada. Se estiverem a viver numa habitação provisória, podem levar uma carta dessa pessoa (de preferência um cidadão britânico ou um portador de National Insurance Number) dizendo que vivem na casa dela e que ela se responsabiliza pela vossa estadia até encontrarem uma habitação própria. Sim, vão fazer-vos várias perguntas, mas o importante é que esteham calmos e confiantes. Ao telefone, perguntam-vos quando chegaram, onde estão a viver e porque é que vieram para o Reino Unido. Na entrevista presencial, voltam a questionar-vos sobre as vossas intenções no país (só têm de dizer que vieram para trabalhar), de onde vieram, com quem vieram, onde vivem, com quem vivem e quando estimam começar a exercer uma actividade profissional (respondam sempre em menos de 90 dias). Eu tive tanta sorte! O senhor que me entrevistou era bastante simpático, viajava frequentemente para Portugal e conhecia imensa gente no país. Tornou-se muito mais fácil e eu fiquei menos nervosa com o questionário. 

ATENÇÃO: No Reino Unido, os nomes dividem-se em First Name, Middle Name e Last Name. O nosso nome, para os britânicos, fica dividido da seguinte forma: 
First Name -  Primeiro Nome Próprio;
Middle Name - Segundo Nome Próprio e Primeiro Apelido;
Last Name - Último Apelido.
Se o vosso nome ficar dividido desta forma na entrevista para obterem o National Insurance Number, mais tarde, em pedidos de crédito, registos para votar, registos de residência ou pedido de carta de condução britância, o vosso nome real (Nomes Próprios e Apelidos) não será o mesmo que irá aparecer nestes outros documentos, o que invalida os mesmos. Portanto, expliquem, na vossa entrevista e sempre que tiverem de dar o vosso nome a uma entidade oficial, que em Portugal, os nossos nomes se dividem em Nomes Próprios (First Name) e Apelidos (Last Name) sempre. Ou seja, se o vosso nome for Maria Antónia Vaz Freitas (um nome que surgiu out of nowhere, portanto Marias Antónias Vaz Freitas, desculpem desde já!) deverão explicar que os vossos First Name são Maria Antónia e que os vossos Last Name são Vaz Freitas, não existindo qualquer Middle Name. Resumidamente, não existem Middle Name em Portugal. Estamos entendidos?



4. Começar a enviar Currículos
A partir do quinto dia da vossa nova vida em Londres e depois de marcada a entrevista para pedido de National Insurance Number, estão oficialmente preparados para começar a enviar currículos. Aqui dei-vos algumas dicas de como prepararem currículos, consoante o tipo de trabalhar que pretendem procurar. Na próxima publicação vou falar-vos detalhadamente acerca da procura de trabalho no Reino Unido e também contar-vos a minha experiência em termos de emprego em Londres. Hoje, retenham apenas que o mais importante é não desistir. Se vieram para Londres à procura de um trabalho como designer gráfico, por exemplo, dediquem-se à procura desse mesmo trabalho, mas, se o dinheiro estiver contado, não se fiquem por aí. Enviem currículos para outro tipo de trabalho, como em lojas ou restaurantes. Embora não seja o vosso sonho, a realidade é que Londres é uma cidade cara e vocês vão precisar de dinheiro ao final do mês, para alugar a vossa própria casa ou quarto. Mas também é verdade que em Londres a mudança é uma palavra constante na vossa vida e, se hoje são customer service advisors, não quer dizer que amanhã não serão graphic designers. Aqui apenas não vale parar. É mais importante para um recrutador ver que vocês não desistiram nem baixaram os braços do que perceber que estiveram apenas à espera do vosso trabalho de sonho. 

5. Inscrever no Consulado Geral de Portugal em Londres
Okay, isto veio com a experiência e não foi algo que fiz assim que cheguei. Mas é por isso que aqui estou: a ajudar-vos para que não comentam os mesmos erros que eu cometi. é importante haver um registo de todos os portugueses que vivem fora de Portugal, para que possa ser prestado um melhor auxílio aos mesmos em caso de necessidade. E esse auxílio só é prestado se as entidades portuguesas responsáveis souberem que vocês vivem em determinada parte. Portanto, tratem de tudo, mesmo que hoje vos pareça pouco relevante para que, quando um dia precisarem, possam pedir ajuda rapidamente. A vossa inscrição pode ser feita pelo correio, sem que precisem de se deslocar ao posto consular. Vejam mais informações aqui

6. Abrir uma conta no banco
Esta vai ser provavelmente a maior aventura de todas. É preciso ter conta no banco para começar a trabalhar e conseguir arrendar uma casa. É preciso ter um comprovativo de morada para abrir conta em alguns bancos e, muitas vezes, é preciso trabalhar para que a abertura da vossa conta seja um processo rápido e sem grandes questões. Ora, tendo em conta a minha experiência, abrir uma conta no banco depende muito da pessoa que vos atender quando visitarem os balcões bancários. A minha primeira conta foi aberta sem qualquer problema e sem grandes questões, a segunda conta demorou várias semanas a ser aberta, porque de cada vez que visitava um balcão do banco ou estavam de agenda cheia ou eram extremamente desagradáveis comigo e eu desistia ao fim de cinco minutos de conversa. Existem várias opções: o Barclays, o Santader, o NatWest, o HSBC, o Lloyds Bank e mais uns quantos. Quando cheguei, visitei o Barcalys, porque conhecia o nome de Portugal. Atendeu-me uma senhora, visivelmente chateada por estar a trabalhar naquele dia, que me disse que sem casa alugada em meu nome não me abria a conta. Saí desanimada. Visitei o HSBC e o NatWest de seguida e obtive a mesma resposta. Uns dias mais tarde, ainda sem conta no banco, falei com uma amiga portuguesa que veio estudar para Londres e ela contou-me que tinha passado pelo mesmo e que a saga só terminou quando visitou o Lloyds Bank. Peguei no meu Passaporte e fui até aos balcões desse banco no Centro Comercial Westfield, em Stratford, os mesmos que a minha amiga tinha utilizado. Na maior paz, uma senhora super simpática atendeu-me, disse-me que não havia problema nenhum, que me podia abrir a conta apenas com o Passaporte e a carta de confirmação de que tinha pedido o National Insurance Number e marcou-me uma entrevista no Lloyds Bank de Bank (Bank é uma das muitas "freguesias" de Londres) para dali a dois dias. Na data marcada, fui a uma entrevista com uma outra senhora simpática, que, em uma hora, tornou realidade a minha vontade de abrir uma conta bancária neste país. Et voilá, na data em comecei a trabalhar tinha já comigo o meu cartão do Lloyds Bank. Até hoje, nunca me arrependi desta escolha. O Lloyds Bank é, sem dúvida, o melhor banco que podia ter escolhido. É simples resolver tudo e quase nunca preciso de ir aos balcões do banco, uma vez que existe uma aplicação para o telemóvel MEGA FIXE, que nos permite fazer (quase) tudo online, como abrir contas poupança, por exemplo.



Depois de cumpridos estes passos, podem respirar de alívio pois já ultrapassaram a fase das burocracias. A partir de agora, é só começar a trabalhar e encontrar uma casa à vossa medida. Nos próximos dias, falo-vos sobre isso e dou-vos mais dicas para que a vossa transição seja a melhor possível.

Com amor, 
Joana

PS.: Obrigada pelos vossos comentários e mensagens sempre tão encorajadores. Peço desculpa por não vos conseguir responder individualmente nem visitar os vossos blogues, mas até que esteja concluído o meu regresso a Portugal todos os meus segundos andam bastante contados. Mas quero que saibam que vos agradeço, do fundo do coração, por estarem desse lado! :)

VIVER EM LONDRES | O que fazer antes de partir


Não, não desapareci nem me esqueci de que tinha de vos contar todas as minhas aventuras londrinas. Na verdade, os últimos dias foram uma correria. Empacotámos a vida em caixas (47 no total, dá para acreditar?), passeámos pelos poucos locais que ainda estão por visitar e aproveitámos o verão que pareceu chegar mais cedo. De repente, é dia 12 de Abril e faltam apenas dez dias para outra grande aventura começar. A nossa vida em Portugal. Wow. 

Mas e vocês? Vocês que querem fazer o caminho inverso? Vocês que estão mais do que preparados para mudar, de malas e bagagens, para o Reino Unido? É sobre isso mesmo que vos falo hoje. O que precisam de fazer antes de mudar de ares e embarcar na vossa própria aventura? 



Preparem-se. Vão buscar o vosso caderno de apontamentos. Eu conto-vos tudo. 

{Por favor, lembrem-se de que tudo aquilo que vos escrevo é baseado na minha própria experiência. Poucos planos, muita acção no local: encontrei trabalho e casa quando já cá estava; nada foi feito à distância. Se sentem que devem fazer de outra forma, façam-no. O mais importante é aquilo que vos deixa mais confortáveis.}

1. Escolher a cidade
Se aquilo com quem sempre sonharam foi viver no Reino Unido, não tenham medo. Venham. Esqueçam o Brexit (e as reportagens assustadoras da TVI): há trabalho, há boa qualidade de vida, há paz, sossego e segurança. Claro que há pessoas que não sabem o significado de solidariedade, de amizade e de respeito, mas elas também existem em Portugal. Por isso, descansem os vossos pais e avós e expliquem-lhes que, quando regressarem, fá-lo-ão com um horizonte muito mais alargado. Ainda assim, o Reino Unido é muito grande. Por isso, o primeiro passo é pesquisar sobre os lugares que mais se adequam ao vosso estilo e nível de vida, ao tipo de trabalho que pretendem ter e aos vossos objectivos. Para mim, a primeira escolha foi sempre Londres. E, se voltasse, continuaria a ser Londres. Londres é o coração desta ilha. É uma cidade gigante, que nunca dorme. É uma cidade tão grande que cabem nela centenas de mundos (e todas as suas "freguesias" são tão diferentes entre si que, se se fartarem de um estilo de vida, podem sempre mudar de freguesia e descobrirem-se novamente). Aqui há sempre qualquer coisa para fazer, descobrir e conhecer. Mas atenção: Londres é a cidade mais cara. Um quarto, em boas condições, numa casa aceitável, pode custar £800 ou mais, e uma casa, na Zona 3, custa, em média, £1200 por mês. Claro que, se o teu objectivo for poupar dinheiro, poderás optar por partilhar quarto ou por viver em shared accommodation (irei falar disto nos próximas publicações), mas, mesmo assim, é bom ter em atenção os elevados custos de vida da cidade. Se quiseres optar por cidades mais baratas, sem perder, no entanto, a vida social, poderás experimentar Cardiff, Bristol ou Brighton, por exemplo. Se não quiseres ficar muito longe de Londres, Windsor ou Oxford são também boas opções: se escolheres morar nestas cidades, poderás, por exemplo, trabalhar em Londres. Quando fiz a minha pesquisa, antes de vir, as minhas opções incluíam também Liverpool e Manchester, mas a verdade é que ambas me pareciam muito escuras e sem grande vida. Além disso, serei sempre uma mulher do sul, portanto o norte do Reino Unido continua, para mim, fora de questão. 

2. Definir um budget
Quanto dinheiro precisas de trazer contigo? Esta era a minha maior questão, quando decidi viver em Londres. A verdade é que atirei um valor um bocadinho para o ar e decidi que esse valor teria de ser suficiente para um mês, sendo que, ao final de um mês, eu tinha de conseguir um trabalho. Para mim, era mais importante mentalizar-me de que tinha de arranjar um trabalho, do que fazer as contas todas direitinhas e contar com ficar mais do que um mês desempregada. No bolso, trouxe 5000€. Se deu? Deu. Se deu para viver à vontade? Não. Portanto, façam as contas tendo em conta os vossos objectivos e o estilo de vida que querem ter no início. Se quiserem encontrar um trabalho específico, não estando disponíveis para agarrar "qualquer coisa", dêem a vocês próprios um prazo maior e tragam mais dinheiro. Se estiverem dispostos a aceitar o primeiro trabalho que vos oferecerem, então não precisam de quantias muito grandes. Os meus 5000€ duraram dois meses. Com eles paguei dois passes mensais, um mês e meio de renda no AirBnb onde fiquei instalada, um mês de renda e a caução do quarto que aluguei a partir de Agosto, comida para dois meses (comprada em supermercados baratos, como o Tesco ou o Iceland), alguma roupa que precisei de comprar para as entrevistas de emprego e 100€ que deixei de parte para a minha vida social (pouco social, vá) da altura (isto incluiu duas aulas de yoga e um bilhete para conhecer a Rachel Brathen!). Vivi muitos dias na corda bamba e chorei muitas vezes a achar que nunca ia encontrar trabalho, mas a verdade é que o objectivo de encontrar trabalho em um mês resultou e comecei a trabalhar a 27 de Julho de 2015. Se era o meu trabalho de sonho? Não. Mas acreditem que aprendi muito a trabalhar neste país. 



3. Arranjar um lugar provisório para ficar
Se querem um conselho, não tentem arranjar casa à distância a menos que conheçam alguém que já esteja no país e que possa ir verificar a casa por vocês. Há demasiados esquemas ilícitos com habitações no Reino Unido, exactamente porque há uma grande procura. Por isso, o melhor é mesmo encontrar um apartamento ou quarto provisório para os primeiros tempos. Falem com amigos que vivam no país ou com pessoas que pensem poder conhecer alguém de confiança com contactos aqui para vos arranjar um lugar para um mês. Alternativamente, utilizem plataformas como Couchsurfing ou AirbBnb ou escolham um hostel barato que vos possa albergar. Aquilo que escolhi fazer foi entrar em contacto com a minha professora de yoga que viaja bastantes vezes para o Reino Unido e conhecem muita gente por estes lados. Por sua vez, ela falou com uma amiga que cá vive, que falou com outra amiga que tinha quartos para alugar por um mês e foi assim que acabei a conhecer a Ros, a pessoa mais querida que me podia ter recebido em Londres. A Ros alugava os quartos no AirBnb e, durante um mês, acabei por conhecer holandeses, alemães e italianos que foram passando pela sua casa. A casa era super confortável e a Ros tinha um especial interesse por ecologia e permacultura, por isso acabei a aprender imenso com ela. 

4. Estudar inglês
Se é preciso saber falar fluentemente inglês para viver no Reino Unido? Não. Conheço muitas pessoas que entendem e falam apenas e básico e não só trabalham como vivem à vontade no país, deslocando-se, indo às compras e frequentando outros espaços públicos. Muito do inglês que a maior parte de nós sabe falar foi aprendido aqui, porque, obviamente, cada lugar tem as suas formas de expressão. Eu própria não sabia mais do que o básico, mas em apenas um mês o meu inglês melhorou bastante. Mas, apesar disso, acredito que deve haver um esforço para aprender mais. Quando digo "estudar inglês" não estou a  dizer que devem ter aulas da língua ou algo do género, mas interessem-se por conhecer e saber mais. Antes de virem, leiam muito em inglês, vejam filmes britânicos, vejam as maiores diferenças entre o inglês americano (aquele que a maior parte de nós fala) e o inglês falado no Reino Unido, façam exercícios de gramática e vocabulário no Duolingo. Tudo isto vai deixar-vos mais à vontade em compreender e em não ter tanta vergonha de falar. Apesar de haver quem viva no país sem falar a língua, sou da opinião que, se queremos inserir-nos na sociedade e criar ligações com os mundos que cabem neste país, devemos, pelo menos, conseguir expressar-nos em inglês. O resto vem com o tempo.


5. Peçam o Cartão Europeu de Seguro de Doença 
Este cartão é gratuito e pode ser pedido nos balcões da Segurança Social ou online aqui, permitindo-vos ter acesso a cuidados de saúde em toda a União Europeia como se estivessem em Portugal (em alguns países, o serviço de saúde chega mesmo a ser gratuito). Este cartão é obrigatório para todos aqueles que vivem no Reino Unido como estudantes ou auto-suficientes. Eu sempre tive o Cartão Europeu de Seguro de Doença, até mesmo em anos em qe não viajei, porque é gratuito e nunca se sabe o que pode acontecer. Portanto, peçam-no!

6. Façam vários currículos e muitas cartas de apresentação
Vejam como está o mercado de trabalho para as áreas em que pretendem procurar ofertas e comecem a desenhar um currículo bonito e uma carta de apresentação. Lembrem-se de que o modelo de CV europeu não é visto com bons olhos por estes lados e apostem em algo criado por vocês, original e detalhado. Esqueçam os modelos utilizados em Portugal, em que o nosso currículo ou tem uma página ou vai para o lixo. Aqui a qualidade é o mais importante. Pesquisem modelos de currículos mais utilizados nas áreas em que pretendem procurar. Por exemplo, se querem trabalhar em atendimento ao cliente o modelo mais indicado é um deste género. O mais importante é que fale dos objectivos que já foram atingidos na vossa carreira profissional e que inclua uma lista de aptidões.

 

7. Leiam sobre as leis comunitárias e as leis do Reino Unido
Esta é a parte que só percebi que devia ter feito quando já cá estava. Existem leis que regulam os movimentos migratórios no Reino Unido e nos países pertencentes à União Europeia (da qual o Reino Unido ainda faz parte), às quais temos de obedecer para exercer os nossos direitos enquanto cidadãos europeus. Por exemplo, apenas podemos residir no Reino Unido por um período de três meses sem qualquer estatuto, período após o qual devemos provar que nos inserimos numa das seguintes categorias: worker/trabalhador por conta de outrém, self-employed/trabalhador por conta própria, student/estudante, self-sufficent/auto-suficiente ou job seeker/à procura de emprego (temos de estar obrigatoriamente inscritos no Centro de Emprego ou JobCentre, como é conhecido aqui). Um dos melhores websites que devem consultar é o website do governo britânico, em www.gov.uk, e também o website do Consulado Geral de Portugal em Londres, aqui. Na página online do governo britânico encontram ainda muitas outras informações úteis que vos podem dar uma ideia de como será a vossa vida aqui. Sabiam que são multados se deitarem lixo (incluíndo beatas) para o chão? E que vos é pedida identificação sempre que tentarem comprar álcool e tabaco (mesmo que tenham 30 anos, mas aparência de 20)? Todos estes pequenos detalhes que parecem não ter importânica nenhuma podem revelar-se bastante úteis quando cá estiverem. 

8. Compreendam a história do Reino Unido
Parece pouco relevante, certo? Mas não é. A ilha é gigante e, quando se fala em Reino Unido, fala-se, na verdade, de um conjunto de países que constituem uma união política. É por isso que dizer que se vive em Inglaterra quando na realidade a nossa casa fica em Cardiff é a maior blasfémia que alguém pode proferir à frente de um gaulês. O Reino Unido engloba a Inglaterra, a Escócia, o País de Gales e a Irlanda do Norte. A Inglaterra, a Escócia e o País de Gales ficam na ilha da Grã-Bretanha e a Irlanda do Norte faz fronteira com a República da Irlanda, que é outro país, independente do Reino Unido. Situados? Abaixo da ilha, há ainda outras pequenas ilhas, chamadas ilhas do canal (entre a Grã-Bretanha e a França). Por exemplo, em Jersey, uma delas, a população portuguesa imigrante é maioritariamente de origem madeirense. Sabiam disto? Há muitos outro tópicos sobre a história que é bom saberem antes de se mudarem para que não cometam erros e acabem a ofender os britânicos!

Depois de todos estes passos dados e quando se sentirem confortáveis, comprem o bilhete de avião e façam as malas. Se são pessoas que, como eu, tendem a procrastinar comprem o bilhete de avião primeiro (depois de escolherem a cidade onde querem morar) e depois comecem a tratar dos passos seguintes. De qualquer forma, confiem. Confiem que tudo vai correr da melhor maneira. Definam o vosso plano de acção e vão adaptando consoante o que for acontecendo. Sinceramente, flexibilidade é talvez a palavra mais importante quando se dá um passo tão gigante como este. Nem sempre tudo vai correr como queremos; por vezes vamos mesmo querer desisitir de tudo isto. Mas sendo flexíveis e seguindo o nosso coração chegaremos sempre aonde quisermos. 

Com amor, 
Joana


PS.: Obrigada a todos aqueles que enviaram e-mails e comentários com perguntas e temas que gostavam de ver abordados nesta rubrica, Viver em Londres. Todas as vossas ideias vão ser incluídas nas próximas publicações.


Casa.


Cheguei a Londres a 30 de Junho de 2015. Vim livre de razões para ficar. Vim também sem razões para voltar atrás. Acredito que quando saímos do país que nos viu nascer e crescer vamos atrás do nosso espírito aventureiro: por muito que queiramos acreditar, nunca mudamos de país com o coração cheio de certezas. A incerteza é, aliás, aquilo que caracteriza a mudança. Mas atiramo-nos de cabeça. Eu atirei-me de cabeça, de corpo inteiro. Escolhi abraçar a vida num novo país: descobri-lo, aceitá-lo, vivê-lo. Mas longe de acreditar que um dia viria a sentir-me em casa aqui. (Demorei muito tempo a compreender esse conceito: casa. Demorei exactamente oito meses de Londres e uma noite de Lisboa.) Mas a verdade é que um dia, às 5:30 da manhã, ao atravessar um parque no este da cidade, a caminho do trabalho, olhei pela janela do autocarro e, vendo todas as luzes cintilantes lá ao fundo, acreditei nunca mais querer ir embora. Olhando para trás, se não fosse essa noite em Lisboa, tantos meses mais tarde, talvez o sentimento de pertença a este lugar tivesse ficado. Não porque fosse real, mas porque demoraria mais uma vida a entender o sentido da minha mudança. Hoje, sei que não sou eu que pertenço aqui, mas é cada coisa bonita que Londres me deu que pertence à minha história. E essa história londrina continuará em mim, mesmo que eu não continue por cá. Se alguma certeza havia, no meio de tantas reticências que mudar de país me fez colocar, era a de que, custasse o que custasse, iria ver respondidas muitas questões sobre mim. E, hoje, aqui sentada a escrever, sei que não podia ter encontrado melhor forma de as ver respondidas e sei que chegou o momento de tomar consciência dessas mesmas respostas. Não, não tenho resposta para tudo. Sei que há respostas que vou encontrar noutro lugar ou que, já existindo dentro de mim, haverei de entender através de outras aventuras, mas, por agora, tenho o suficiente para prosseguir. E estou feliz.

{A publicação era sobre outro assunto. Mas a verdade é que foi isto que saiu. É o que acontece quando deixo o meu coração falar.} 


Porquê Londres?


O mês começou com duas novidades aqui no blogue (e deixem-me agradecer pelas lindas mensagens de parabéns e sorte que recebi de todos vocês!). Mas, e como juntamente com duas novidades vêm sempre mais umas quantas, a publicação de hoje inicia, assim, um conjunto de outras publicações que já queria fazer há muito tempo mas só agora fazem sentido. Se já sabem que novidades são estas de que vos falei ontem, podem continuar a ler texto. Se não sabem, carreguem aqui

Prontos? Ora, visto que vou deixar a minha cidade londrina e aventurar-me novamente pelas ruas cheias de sol daquela que sempre foi a minha casa - Lisboa - decidi tornar estes vinte e um dias que antecedem a minha mudança para vos contar tudo sobre Londres: como é viver aqui, porque escolhi Londres, o que aprendi com esta cidade, o que vos aconselho a fazer se quiserem viver em Terras de Sua Majestade... Portanto, um verdadeiro manual de vida londrina. Parece-vos bem? 

Ao longo destes vinte e um dias (e sempre que vocês precisarem) podem enviar-me e-mails, comentários, mensagens com questões sobre a vida em Londres que gostassem de ver respondidas e, claro, se tiverem sugestões sobre publicações, por favor, contem-me tudo. 

Vamos a isso então? Está aberto, oficialmente, o mês mais londrino de sempre aqui no blogue! 

E, para começar, obviamente, começa-se pelo princípio: nada mais nada menos do que a razão pela qual decidi vir, a minha partida e como foram os primeiros tempos aqui.

Os meus últimos tempos em Portugal não foram fáceis. Não só porque o tempo parecia muito: estava em casa, sem trabalhar, à espera de uma viagem de avião que parecia nunca mais chegar; como, por outro lado, o tempo parecia pouco: para me despedir de toda a gente, para estar com aqueles que mais falta me fazem agora.
E depois vim. Fiz a tal viagem de avião com as lágrimas nos olhos o tempo todo: porque tinha medo de crescer, de estar sozinha e porque nunca pensei ser mesmo capaz; mas também com um sorriso gigante: estava a sair totalmente da minha zona de conforto e a ser capaz de fazer aquilo que nem eu acreditava ser capaz de fazer.


Hoje, olhando para trás, aquelas horas entre abraçar a minha família pela última vez em muitos meses e o momento que cheguei àquela que seria a minha casa por tempo indeterminado, foram as horas mais estranhas da minha vida: era um sentimento agridoce, estranho, bom e mau ao mesmo tempo. A dúvida misturava-se com a certeza e tanto tinha vontade de desistir como de nunca mais olhar para trás.
As primeiras duas, talvez três, semanas foram como um sonho (nem sempre necessariamente bom, mas eu não sentia que estivesse a viver realmente nenhum daqueles dias). Dividi o tempo entre entrevistas de emprego (uma para nanny, outra para uma loja de souvenirs e aquela que acabou por se tornar numa oferta que aceitei, numa loja de materiais de construção, para a posição de assistente de loja), candidaturas para outras trinta mil funções diferentes e passeios pelos pontos mais conhecidos desta cidade e outros tantos passeios por sítios não tão conhecidos assim. Dividi o meu tempo entre novas pessoas e pessoas antigas: chamadas de skype, visitas de e a amigos, conversas com desconhecidos em pubs. Dividi o meu tempo entre chás, livros e saudades.
Nesta altura, eu vivia na casa de uma senhora super querida, britânica, chamada Ros. Quase não falávamos porque eu morria de vergonha do meu nível de inglês, que, diga-se de passagem, não era assim tão mau. No entanto, ela tentava bastante conversar comigo e ajudar-me a sentir-me mais confortável. Um dia, ela desafiou-me a cozinhar um prato português e ofereceu-se para complementar o jantar com uma sobremesa inglesa. 
Fiz Bacalhau à Brás. Ela cozinhou crumble de maçãs que colheu do seu próprio pomar. 
Durante o jantar, a inevitável pergunta foi feita: "Porque é que vieste para cá?". Durante mais tempo do que aquele que me pareceu aceitável, tentei pensar numa resposta. Construí-la. Desenhá-la. Fazê-la sair no inglês mais perfeito possível. Fazer-me entender, sem que eu me entendesse. Não me ocorria nada. Nenhuma resposta suficientemente boa, suficientemente crescida e adulta. E, desta vez, nem era por ter medo de falar noutra língua que não é a minha. Simplesmente não tinha resposta.

"Não sei. Não sei porque vim nem porque é que estou aqui. Só senti que o tinha de fazer. E fiz."


Foi isto que me saiu. Em inglês. Num inglês não tão perfeito mas o suficiente para me fazer entender. Durante todo o tempo que estive em Portugal, tentei sempre arranjar uma razão para vir: quero estudar yoga num país com mais oportunidades para tal, quero ter oportunidades de emprego, quero melhorar o meu inglês. Naquele dia, nenhuma dessas razões era a maior razão para ter vindo e, por isso, mais do que explicá-lo a alguém eu estava a responder a mim própria. Não havia nenhuma razão racionalmente explicável. A razão estava dentro do meu coração. E essa era a razão para estar aqui.

Sempre fui assim. Sempre segui aquilo que sentia dentro de mim. Mesmo sem saber porque é que sentia determinada coisa. E quando em 2011 pus os pés neste país pela primeira vez senti que tinha de vir para cá. E vim. Em 2015. Sem razões. Só porque aquela sensação que tenho sempre no estômago me dizia que tinha de vir.
A senhora olhou para mim surpreendida e disse que era uma razão perfeitamente válida. E, de repente, senti-me tão melhor comigo mesma. Não tinha admitido a mim mesma que não havia nenhuma razão para ter vindo para cá a não ser porque sentia que tinha de vir até àquela noite. Não admitia porque me ia sentir criança, inconsciente, louca. Teria sido isso que muita gente me chamaria se tivesse respondido isto à pergunta "Porque é que vais embora?" quando me a fizeram em Portugal.


Hoje, quase dois anos depois desta conversa, continuo a sentir que a resposta que dei foi uma resposta mais do que válida. Fui eu, sincera, a colocar o meu coração na boca e deixá-lo falar. Hoje, quase dois anos depois de ter deixado Portugal, gosto de acreditar que a razão maior para esta mudança foi o meu coração saber que era aqui que estava a sua metade. Mas, mesmo assim, continuo a responder orgulhosa que, a primeira razão da minha mudança foi não ter razão, foi uma sensação no estômago a empurrar-me. E só depois falo de todas as outras razões racionais que descobri aqui que seriam motivos para me fazer ficar.

Por isso, vão. Vão sempre atrás da vossa voz. Mesmo quando ela fala baixinho. Vão de braços abertos, à procura de tudo e de nada. Ninguém sabe as maravilhosas aventuras que a vida vos reserva do outro lado do mundo.

Com amor,

Joana

5 COISAS DE QUE VOU SENTIR SAUDADES {e duas novidades}


Posso começar pelo fim deste título? Pelas duas novidades? Claro que sim! Então:

1) Estou noiva!
2) Faltam exactamente 22 dias para regressar para Portugal.

WOW. Eu sei. Isto é muita coisa. Logo assim, de repente, de manhã, para começar bem o dia e o mês. Vou dar-vos uns minutos para lidar com a situação. 

Prontos? Recompostos?

Ora, então passemos a explicar. Num belo dia, no final de Janeiro, o meu Gui levou-me a jantar fora, com o pretexto de que ainda não tinhamos visitado o Shard - um edifício super alto, pontiagudo, perto de London Bridge. Caminhámos cerca de uma hora a pé, junto ao rio, até lá chegarmos e, depois de subirmos (de elevador) os 34 andares do edíficio, deparámo-nos com uma vista maravilhosa sobre Londres. Mesmo. Daquelas de cortar a respiração. O restaurante Aqua London é todo em vidro, bem no topo do Shard, e, à noite, sentimo-nos completamente no topo do mundo, completamente maravilhados pela luz da cidade. Jantámos sem que eu desconfiasse do que iria acontecer a seguir. Falámos dos nossos planos de vida, comentámos os vestidos minúsculos das raparigas sentadas ao nosso lado, rimo-nos porque levámos roupa tudo menos adequada àquele lugar e comemos maravilhosamente bem. No final do jantar, depois de terminarmos um vinho português, fomos até a uma espécie de miradouro, junto ao bar, e foi lá, com a maravilhosa e cintilante vista da cidade onde nos conhecemos, que o Gui fez a pergunta que mudou para sempre as nossas vidas. Sim, o rapaz é um romântico. Antes de dizer que sim, eu chorei e ri ao mesmo tempo, reacção mesmo típica da minha pessoa quando fica nervosa e é apanhada de surpresa. Mas disse. Disse que sim, porque não fazia sentido dar qualquer outra resposta a esta pessoa que me faz acreditar que  único motivo pelo qual vim para o Reino Unido foi para o encontrar.


Agora, limpem as lágrimas. Vamos à segunda novidade. 

Já não me lembro bem quando começámos a falar de um possível regresso a Portugal, mas lembro-me de que a data que tinhamos em mente era 2018. É difícil assentar aqui, construir uma família, aproveitar a vida e o tempo. Corremos de um lado para o outro, pagamos rios de dinheiro em rendas de casa e transportes e não há sol. Passado uns tempos, depois de vivermos ao máximo a vida londrina, é natural que a calma do nosso país nos faça falta. Mas a vida, por vezes, surpreende-nos e a oportunidade de partir mais cedo começou a desenhar-se. E, claro, não lhe virámos as costas. A vida dá-nos aquilo de que realmente precisamo e, se a oportunidade chegou agora, é porque a altura certa é agora. E aí vamos nós. Não podia estar mais contente, nada poderia fazer mais sentido do que a fase maravilhosa de vida que estou a ter neste momento: sinto-me a caminhar cada vez mais rápido ao encontro daquilo que é a minha essência e daquilo que me faz mais feliz, ao lado da pessoa mais maravilhosa do mundo.


Mas, apesar de ter a certeza de que este é o passo mais certo, há coisas que encontrei em Londres que me vão deixar muitas saudades. MUITAS SAUDADES MESMO. Há uma lista interminável delas, mas hoje deixo-vos com as cinco mais importantes. 

1) A Multiculturalidade

Podia escrever uma publicação apenas para vos falar da quantidade de mundos diferentes que cabem dentro de Londres. E é desses mundos todos juntos num só que vou ter mais saudades: a possibilidade de almoçar falafel e húmus num restaurante libanês e jantar guacamole e nachos num restaurante mexicano, ir às compras à China Town ou à Little India, a oportunidade de ouvir mil línguas diferentes, experimentar fazer uma pintura de henna e meditar num templo budista. Mais do que isso, sentir-me livre para vestir o que quero, como quero, quando quero e partilhar os bancos do comboio com raparigas que usam véu e homens de turbante sem ouvir as típicas piadas sobre bombas que tantas vezes ouvi em Portugal. Aqui aceita-se e incentiva-se a diferença, aceita-se que todos vimos de um lugar diferente, todos temos experiências diferentes e são essas nossas pequenas diferenças que fazem de Londres um lugar tão seguro para viver. 


2) A cultura dos postais

Quem me conhece, seja pela escrita, seja em pessoa, sabe que adoro trocar postais. Em Portugal, já era assim, mas aqui este amor tornou-se ainda maior. O mais comum é, por exemplo, dar a alguém um postal a acompanhar um presente de aniversário ou enviar um postal daqueles com fotografias de lugares sempre que viajamos. Mas, em Londres, descobri toda outra panóplia de miminhos que posso dar a quem me é mais querido. Aqui escrevem-se postais quando alguém muda de trabalho: deseja-se "good luck on your new job" ou "we will miss you"; quando alguém muda de casa: "congrats on your new home" ou "we have a new address" e quando alguém fica noivo: "happy engagement!" ou "it's a ring day". Depois há os postais de Natal, os postais do dia da mãe e do pai, os postais de dia dos namorados. E há os postais de aniversário de namoro e de casamento. Os para os tios, primos, irmãos e avós. Há lojas de postais, como a Scribbler ou a Paperchase, onde encontramos até os postais mais inimagináveis, para todos os gostos e ocasiões. Os com mais piada, os mais sérios, os de agradecimento e os inspiradores. Não sei ao certo quantos postais já enviei desde que me mudei para Londres, mas posso dizer com certeza que o número já vai bem perto dos 300. Antes de regressar a Portugal, vou abastecer-me de postais bonitos para que, no meu querido país à beira-mar plantado, não me falte nada. Alguém conhece lojas deste género em Lisboa?

3) A organização dos transportes públicos

Tirando umas quantas chatices na Central Line e umas zangas entre mim e a Bakerloo Line, tenho zero queixas para apresentar sobre os transportes públicos em Londres. Sou maioritariamente utilizadora do metropolitano, mas, de vez em quando, os autocarros e os comboios também me levam até ao meu destino. Ao contrário daquilo que acontece em Lisboa, aqui há metro de um em um minuto em hora de ponta e, fora dela, no máximo espera-se cinco minutos. À noite, cinco minutos é também o tempo de espera mais comum. O metro anda à velocidade da luz e rapidamente chegamos à outra ponta da cidade. É verdade que toda a linha, à excepção talvez da District Line e da Hammersmith & City, é bastante antiga: os comboios chiam por todo o lado, são pouco arejados (na Central Line, em pleno verão, os termómetros atingiram os 50ºC) e pouco espaçosos, mas, em compensação, há metro durante 24 horas, às sextas-feiras e sábados e eu sei perfeitamente que a quantidade monstruosa de dinheiro que dou todos os meses está a ser bem utilizada. Londres funciona por zonas e, por isso, devemos escolher os passes mensais de acordo com as zonas que utilizamos. Por exemplo, eu utilizo o passe para as zonas 1 à 3. Pago 150 libras todos os meses. Mas isso, para além de me permitir utilizar o metro, permite-me ainda utilizar os comboios dentro dessas zonas e todos os autocarros independentemente da zona. Ou seja, se eu quiser ir a algum lado que fica na zona 6, o que eu faço é apanhar o metro até ao limite da zona 3 e, depois, qaulquer autocarro que me leve até lá. Assim, não pago mais. Assusta-me a ideia de regressar à confusão que é o metro de Lisboa e assusta-me ainda mais começar a ter a mentalidade de que a solução é arranjar um carro. E, vocês, como se deslocam em Lisboa?


4) A vontade de aproveitar a vida fora de casa

Em Londres, é raro apanhar um dia de bom tempo. E, por isso, quando o sol brilha e a temperatura é mais amena, os parques enchem-se de pessoas, as margens do rio ficam cheias de casais e grupos de amigos que fazem piqueniques e é raro ouvir alguém dizer que passou o dia em casa. Até mesmo quando chove, a vida continua a correr lá fora. E não há cá chapéus de chuva (a não ser os dos turistas). Vêem-se crianças a brincar em poças de água e adultos a andar de bicicleta como se passeassem no paredão de Oeiras em pleno Agosto (vá, se calhar um bocadinho mais vestidos). Quando o sol brilha, calçam-se as sandálias e deixam-se os sobretudos no armário e renovamos as nossas reservas de vitamina D. Levo comigo a certeza de que, em Portugal, todos os dias de luz serão aproveitados, até mesmo quando não está propriamente calor: quero voltar a ir à praia no inverno, a descorbir as serras no verão e a deliciar-me todos os dias com a beleza do nosso país. Fora de casa.


5) As lojas de segunda-mão

Chamam-se charity shops e são a melhor invenção de sempre. Lá, vende-se roupa, livros, discos, objectos decorativos e até mobílias em segunda mão. Encontra-se de tudo, desde roupa bem vintage a vestidos de noiva e tudo por um preço muito baixo. Todo os dinheiro da venda reverte a favor de uma associação, como por exemplo a British Heart Foundation ou a McMillan Cancer Support. Ao contrário daquilo que ainda sinto que acontece muito em Portugal, ninguém tem vergonha de admitir que comprou determinado outfit numa loja de roupa em segunda-mão. E, quando olhamos para alguém, também não conseguimos perceber se o que essa pessoa veste foi comprado numa destas lojas ou veio directamente da Primark ou da H&M (a menos que saibamos as coleções de cor e salteado). Em Lisboa, só conhecia a Outra Face da Lua (onde é impossível comprar algo porque é tudo exageradamente caro) ou a Humana. Qual é a vossa experiência em lojas de segunda-mão em Lisboa?

Agora que Abril começa, e que a minha história em Londres está a acabar, vou encher o blogue de publicações acerca desta cidade magnífica que me ensinou tanto, com a esperança de, talvez, inspirar alguém a vivê-la melhor. Feliz mês de Abril!

Com amor, 
Joana

ACMA | HOBBIES & PASSATEMPOS | O Meu Yoga


A Primavera chegou e, com ela, trouxe um sentimento de energia renovada: a vontade de mergulhar mais fundo no yoga. No meu yoga. E é dele que vos falo hoje, nesta nova participação no Projecto A Cultura Mora Aqui (ACMA), que pretende descobrir mais sobre os nossos hobbies e passatempos. 


São seis da tarde. A minha casa está em silêncio. Não há muita luz, porque, hoje, por estes lados, o sol não se deixou ver, apesar de ter lido pela Internet que a primavera chegou a muitos pontos do país. Está frio. Vou buscar o meu tapete de yoga roxo, os meus blocos cinzentos e o meu cinto azul. Desenrolo o tapete pelo chão da sala e sento-me. Fecho os olhos. Apetece-me ficar só aqui sem fazer nada, sem dizer nada, sem pensar em nada. Apetece-me ficar aqui a sentir, apenas. Primeiro, a minha respiração. Profunda, a acalmar a pouco e pouco. Depois, todo o turbilhão de emoções que andam por aqui, que têm andado: não só à flor da pele, mas em toda a sua profundidade. E é isso mesmo que faço. Camada após camada de pele vou descascando tudo. Vou deixando o meu corpo fragmentar-se, inspirando, expirando, inspirando outra vez. Vou-me partindo em pedacinhos cada vez mais pequenos de pele e de corpo. Inspirando o ar da minha casa, que cheira a lavado, e expirando pedacinhos cada vez mais pequenos de coisas acumuladas, sujas, desnecessárias. Lágrimas, gritos, dores, memórias. Vou retirando o peso de tudo e vou ficando mais leve. Cada vez mais leve. E, de repente, sou só um ponto de luz, a tentar livrar-se da escuridão que se acumula ano após ano. 
Há pouco mais de três meses, eu era só uma pessoa que achava que só precisava de uma hora por semana de calma e de espaço para respirar e para estar focada em mim: depois, vivia o resto da semana agitada, nervosa, como sempre. Iludia-me muito. Todos os dias. 
Há pouco mais de três meses, era tão difícil chegar ao ponto em que me permito a sentir tudo aquilo que há para sentir. Era tão difícil permitir-me a estar ali: vulnerável e fragmentada. Ouvia as palavras daqueles que me tentavam guiar até ao lugar da leveza e pensava: "Não consigo. Não posso. Não quero chegar a esse ponto. Não me façam sentir isto. Quem é que vos disse que me quero libertar do que tenho cá dentro? Faz parte de mim. É aquilo que eu sou. São as minhas coisas.". Queria ser "uma pessoa forte", queria ser "melhor", queria ser, na verdade, tudo menos eu e, de preferência, continuando a iludir-me, a arranjar escapatórias. Mas, depois, tornou-se tão necessário parar tudo: deixar-me ser vulnerável e fragmentada. Tornou-se tão necessária a comichão na garganta, que me fazia tossir em todas as posturas de yoga mas que me libertava e criava espaço para novas palavras e novos sons. Tornou-se tão necessário o nó na garganta que me sufocava mas que, aos poucos, me ensinava a pedir aquilo que sempre quis e a dizer aquilo que sempre precisei de dizer. Tornou-se tão necessário sentir as lágrimas quentes a escorrer pelo meu rosto, lágrimas de contentamento por estar, por fim, a partir a carapaça e a pedra que me envolvia e que eu nem sabia que tinha. Tornou-se tão necessário ter o meu coração quente de felicidade. 


Se, há dois anos atrás, me dissessem que, dois anos depois, ia ser esta pessoa que sou agora eu teria rezado para que se enganassem. Eu resistia, sim. Contrariava-me. Contrariava a minha verdadeira natureza, as minhas necessidades, as minhas emoções. Fugia. E não entenderia se me dissessem que desenrolando um tapete, fechando os olhos, respirando e carregando no botão "STOP" da vida que levo por uns momentos estaria a carregar no botão "PLAY" da vida que quero real e verdadeiramente levar. 
Se antes eu achava que, para ser feliz, precisava de ser a minha definição de forte e de estar segura de todas as minhas decisões, de ter o que achava que queria naquele momento no exacto momento em que queria, de me proteger na minha carapaça de todos aqueles que podiam atacar a minha vulnerabilidade, hoje, tenho a certeza de que não podia estar mais errada. 
Hoje, sei que ser forte é, para além de permitir-me a sentir o turbilhão de emoções à flor da pele e em toda a sua profundidade, libertar-me daquilo que é desnecessário respiração após respiração, criando espaço para novas vivências e para continuar o meu caminho. Ser forte é permitir-me a fraquejar, a deixar-me ser vulnerável, a deixar-me inundar por todo este mundo cheio de outras pessoas maravilhosas e carregadas de ensinamentos, colocadas no meu caminho para me levarem mais longe e me fazerem mais feliz. Ser forte é deixar-me ser o ponto de luz deitado no tapete, fragmentado. 
Hoje, olhando para o presente, para o ponto de luz deitado no tapete roxo, vejo alguém que descobre, todos os dias, um caminho que vale a pena, alguém que aprende a apreciar os pontos mais escuros de si própria e libertar-se deles quando é chegada hora, alguém que consegue começar a ver com clareza, a sentir com amor. Vejo alguém que sabe que ainda há um longo caminho pela frente, alguém que está em pulgas para o percorrer. Vejo alguém com sede de aprender, de crescer mais, de desatar mais nós e de limpar mais janelas, para que fique tudo brilhante. 
A minha prática de yoga começou por ser o meu hobbie: uma aula à quinta-feira, num estúdio no Campo Pequeno. Depois o Yoga mudou-me. Mudou-me sem eu sequer dar por isso. Questionou as minhas crenças, as minhas relações humanas, os meus gostos, as minhas necessidades. E dá-me tudo aquilo de que eu preciso para aprender a lidar comigo, com o mundo, com a vida e com os sentimentos, sensações e pensamentos de uma maneira mais consciente, mais grata e mais feliz. Hoje, sei que o yoga é um estilo de vida: a forma como olho para mim, como reajo ao que me acontece, a calma que encontro depois de um grito de frustração ou a vontade de parar e ouvir o meu coração depois de uma tempestade de sentimentos. 


Podem ver mais publicações escritas por mim para este projecto aqui

Lista de criadores:


E tu? Também gostavas de participar neste projecto? Se a resposta for positiva, então não esperes mais: envia já um e-mail para acma.cultura@gmail.com. 

Já sabes, não falaremos de moda nem acessórios, mas daremos banhos de cultura ao mundo dos blogues e bloggers. Ah, muito importante: se és Youtuber não te acanhes. Também tu podes participar neste projecto! 

Não se esqueçam de visitar a página do Facebook do projecto e ainda dar uma vista de olhos aos blogues participantes

Writing: my favourite kind of meditation

Meditar. Diz-se por aí que meditar está na moda. De repente, o mundo está cheio de palavras como "mindfulness", as livrarias estão cheias de livros onde se pintam mandalas e a loja de aplicações dos nossos telemóveis sugere-nos várias vezes por dia para que façamos o download de uma app que promete desligar o nosso cérebro e, assim do nada, levar-nos ao nirvana.
Nunca fui grande fã daquele tipo de meditação em que nos pedem para fechar os olhos e apenas estar ali. Há muitas pessoas que pensam que tenho uma prática de meditação diária, porque pratico yoga, mas não tenho. Às vezes, sim, apetece-me apenas "existir", sentada no chão, de pernas cruzadas ou deitada no tapete. Mas é raro. Eu encontrei outras formas de meditação que funcionam melhor para mim.
A verdade é que cada pessoa funciona de maneira diferente: há quem goste de pintar mandalas, há quem medite enquanto faz jardinagem, há quem prefira meditações guiadas, há que não queira sequer ficar em silêncio. E, claro, está tudo bem. Não é preciso comprarmos CDs, livros, aplicações que nos ensinem a meditar. Nós somos capazes de encontrar as nossas próprias formas. Bem dentro de nós. Faz o que for melhor para o teu coração. 
Hoje, quero falar-vos da minha prática de meditação preferida: escrever.
Desde que me lembro que me expresso muito bem através de um papel e de uma caneta. Não construo frases muito elaboradas nem obras literárias magníficas, mas consigo deitar cá para fora o que vai no meu coração e na minha cabeça através das palavras. E essa foi a forma que eu encontrei de organizar os meus pensamentos e conseguir estar calma. Quando algo de menos bom se passa, quando a minha cabeça está a mil, quando o meu coração não sossega, escrevo.
Quando era mais nova, tinha milhares de cadernos espalhados pela casa onde escrevia: contos, frases, palavras, cartas. Hoje, ainda tenho os meus sítios secretos onde escrevo: agora dentro de malas de viagem ou na estante do quarto. Escrevo para mim e muitas vezes escrevo para os outros, quando as palavras me entopem a garganta. Antigamente, esgotava até os caracteres das mensagens nos meus telemóveis e enviava mensagens partidas para não se transformarem em MMS. 
Escrevi em cinco ou seis blogues diferentes e agora escrevo neste. Escrevo em aviões, quando consigo ver o mundo de cima. Escrevo à noite, de manhã e, às vezes, até de madrugada, com um olho meio aberto e outro fechado. Os dias em que mais escrevo são os dias em que mais consigo sossegar o meu coração. E é por isso que sei que esta é a minha melhor forma de meditar: deixo os pensamentos fluir do meu coração para o papel e, depois de muitas páginas cheias ou de apenas uma linha ocupada, respiro fundo, estico os braços e sinto-me leve. Capaz de voar. 



{Obrigada à Sónia por me relembrar do quão feliz me sinto depois de escrever.}